TV DIGITAL INTERATIVA
por Regis Alvim Junot

Última atualização em 28/07/2010 às 16h50.
Evolução tecnológica

No final do século passado, o surgimento do DVD (Digital Versatile Disc) trouxe um enorme salto de qualidade quando comparado com as fitas VHS (Video Home System). Enquanto o VHS oferecia imagens e sons de baixa qualidade e não apresentava qualquer recurso interativo, o DVD apresentava imagem e som melhores, áudio Surround 5.1, menus interativos com possibilidade de selecionar cenas, idiomas de áudio e legendas, multiângulos, conteúdos “Extras” como vídeos de bastidores, galeria de fotos, informações em textos, entre outros recursos.

De forma semelhante, a televisão digital também representa um enorme salto de qualidade quando comparada com a televisão analógica. Do ponto de vista tecnológico, além da melhor qualidade de imagem e som, a TV digital permitirá a implantação de novos atrativos: a alta definição, a interatividade, a mobilidade e a portabilidade.

TV analógica e TV digital

A TV analógica, em funcionamento atualmente, permite somente imagens em resolução Standard, com até 525 linhas horizontais na proporção 4 por 3 e áudio com 2 canais estéreo. A TV digital permite a transmissão de imagens em alta definição, com até 1080 linhas horizontais na proporção 16 por 9 e áudio com 6 canais no padrão Surround 5.1, semelhantes ao cinema.

A tecnologia analógica, como o próprio nome diz, faz uma analogia com os diferentes valores elétricos de luminância (luz) e crominância (cor) contidos nas ondas eletromagnéticas. Essas ondas eletromagnéticas estão sempre sujeitas às oscilações e interferências causadas por fatores naturais (chuva, vento, raios, radiação solar) e não naturais (funcionamento de motores, eletrodomésticos e outras transmissões de radiofreqüência) que acabam deteriorando e distorcendo o sinal.

O termo digital é derivado da palavra dígito, que é sinônimo de algarismo. Na tecnologia digital, as informações são formadas por seqüências de números 0 e 1, também conhecidos como bits. Na transmissão de TV digital, as imagens e os sons são convertidos em fluxos de bits que, por sua vez, são transformados em sinais elétricos e transportados pelas ondas eletromagnéticas através do ar. Esses sinais elétricos chegam a um receptor digital, são novamente transformados em fluxos de bits e convertidos em imagens e sons.

Se, em um determinado momento nesse processo, houver a perda de um bit de uma seqüência de informações digitais, toda esta seqüência estará perdida ou “corrompida”. Portanto, qualquer informação digital é composta por seqüências de bits completas ou simplesmente não há informação. Não existe meio termo. É por causa desse princípio que se pode afirmar que, na TV digital, receberemos um sinal perfeito ou simplesmente não receberemos nenhum sinal. Nas transmissões digitais, as imagens estarão livres de fantasmas, chuviscos e ruídos, proporcionando muito mais qualidade do que nas atuais transmissões de TV analógica.

No entanto, para desfrutar de toda essa qualidade, é necessário um aparelho de TV compatível com o novo padrão, como LCD, LED ou plasma. Além do alto custo, vários modelos desses televisores não possuem o receptor digital integrado. Nesse caso será necessário adquirir um receptor externo, o Set Top Box. Através desse aparelho, o sinal digital poderá ser exibido em qualquer televisor, com melhoria considerável da qualidade de imagem e som. Alguns modelos de LCD, LED e plasma saem de fábrica com o receptor digital integrado.

Mas a grande novidade da TV digital está mesmo na interatividade. Como o sinal digital é composto por dados em forma de bits, será possível transmitir, junto com imagem e som, o software para realizar a interatividade entre o telespectador e o programa de TV. Através do controle remoto, os dados sobre votações, jogos e compras, por exemplo, poderão ser enviados à emissora de TV por um canal de retorno. A princípio, o retorno poderá ser realizado através de conexão de internet em banda larga, acoplada ao receptor digital. Essas operações serão semelhantes às que realizamos atualmente na Web.

Também serão possíveis aplicativos com interatividade local (sem retorno de dados à emissora de TV), como guia de programação, curiosidades sobre os programas, informações sobre produtos anunciados, prestação de serviços de utilidade pública, entre outros. Esses recursos e conteúdos interativos serão semelhantes aos EXTRAS dos DVD´s de filmes e espetáculos musicais.

O telespectador terá uma postura mais ativa diante da televisão e se tornará um teleusuário. Utilizando o controle remoto, será possível realizar interações e acessar recursos e conteúdos que, atualmente, estão disponíveis na Web, em DVD´s, CD-ROM´s multimídia, celulares e outros dispositivos móveis e portáteis. A interatividade do telespectador com o conteúdo televisivo já é objeto de pesquisa e desenvolvimento em algumas universidades, instituições de pesquisa e emissoras.

TV digital no Mundo

No mundo existem quatro sistemas de TV digital:

ATSC - Advanced Television Systems Committee (americano) - Implantado por Estados Unidos, Canadá, Coréia do Sul, México, Honduras e Porto Rico. Adotado (mas não implantado) pela República Dominicana.

DVB - Digital Video Broadcast (europeu) - Implantado por vários países da Europa. Adotado (mas não implantado) em alguns países da Ásia, África, Oceania e América Latina (Uruguai, Colômbia e Panamá).

DMB - Digital Multimedia Broadcasting (chinês) - Implantado apenas na China.

ISDB - Integrated Services Digital Broadcasting (nipo-brasileiro) - Implantado por Japão, Brasil, Peru e Argentina. Adotado oficialmente por Chile, Venezuela, Equador, Paraguai, Bolívia, Costa Rica, Belize e Filipinas. O Uruguai manifestou intenção de mudar para este padrão. Recentemente, alguns países da América Central e Caribe (Cuba, Guatemala, Jamaica e Nicarágua), da África Austral (África do Sul, Angola, Botsuana, República Democrática do Congo, Lesoto, Madagascar, Malaui, Ilhas Maurício, Moçambique, Namíbia, Ilhas Seychelles, Suazilândia, Tanzânia, Zâmbia e Zimbábue) e da Ásia (Tailândia) têm feito testes com o sistema ISDB e devem adotá-lo também.


O site Digital Terrestrial Television fornece um panorama atualizado sobre os sistemas de TV digital no mundo.

TV digital no Brasil

Além de ter criado um padrão genuinamente nacional, o SBTVD - Sistema Brasileiro de Televisão Digital, o Brasil testou os padrões ATSC, DVB e ISDB entre 2004 e 2005.

Durante os testes, constatou-se que o padrão ATSC privilegiou a alta definição de imagem e recepção por cabo ou com antena externa. Além de não possuir interatividade, a recepção com antena interna era ruim e a recepção móvel em carros, ônibus e trens não era possível. Apesar dos esforços americanos para corrigir estes problemas, este padrão foi o primeiro a ser descartado.

Apesar de já ser adotado em vários países e ter vários recursos interativos, o padrão DVB exigia o pagamento de royalties sobre a tecnologia de modulação e não era flexível para a integração com os outros padrões. Esse padrão também traria mudanças no modelo de negócios de televisão, com a entrada das empresas de telefonia no mercado de produção de conteúdo audiovisual e radiodifusão. Isso não foi visto com bons olhos pelas grandes redes de TV brasileiras, que não desejavam a concorrência das teles.

Apesar de ter pouca interatividade no Japão, o padrão ISDB apresentou o melhor desempenho na recepção interna com antenas pequenas, na recepção móvel em carros, ônibus e trens e na recepção portátil em celulares, palmtops e laptops. Mostrou-se flexível para a integração com os outros padrões, permitia o desenvolvimento da interatividade com software nacional e dispensava o pagamento de royalties sobre a tecnologia de modulação. O modelo de negócios não seria alterado. A difusão de conteúdo audiovisual continuaria com as emissoras de TV. Mas as operadoras de telefonia poderiam realizar a exploração comercial do chamado canal de interatividade, fazendo a transmissão de dados entre o telespectador e a emissora de TV, no caso dos programas com aplicações interativas.

Seja pela robustez técnica, seja pela pressão política das grandes redes de TV em ano de eleições gerais (2006), o fato é que governo brasileiro escolheu o melhor padrão de modulação: o japonês ISDB. Entre 2004 e 2005, algumas inovações foram testadas no projeto do SBTVD, como a compressão de vídeo MPEG-4, desenvolvida na Europa, e outras foram desenvolvidas em universidades brasileiras, como o middleware Ginga, que é a plataforma de software para realizar a interatividade. Essas inovações foram incorporadas ao ISDB e, atualmente, este é o sistema mais avançado do mundo.

Televisores e conversores

Em dezembro de 2009 a TV digital aberta completou dois anos de existência no Brasil. Passado este período, permanecem as dúvidas dos telespectadores sobre a nova tecnologia. Além da desinformação nos pontos de venda de eletrônicos, as próprias emissoras de TV abordam o assunto de forma superficial e pouco objetiva, confundindo ainda mais o público.

Algumas reportagens misturam TV digital aberta, que é gratuita e transmitida pelo ar, e TV digital por assinatura, que é paga e transmitida por cabo ou satélite. A grande maioria das pessoas desconhece que as operadoras de TV paga oferecem até quatro tipos de assinatura: Analógica, Digital, Digital-HD e Digital-HD com gravação. Definido o tipo de assinatura, o assinante ainda tem que escolher o pacote de canais. E a coisa tende a piorar com a entrada da IPTV, que será paga e transmitida por protocolo de Internet através da conexão de banda larga.

Por enquanto, as principais dúvidas estão relacionadas à questão da definição da imagem. O público, de forma geral, ainda não compreende a diferença entre TV analógica e TV digital, entre HDTV Ready e Full HD, e entre os formatos Standard 4:3 e Widescreen 16:9. Nos últimos anos, muitas pessoas adquiriram televisores de LCD, LED e plasma pensando que podem assistir TV digital de alta definição. Mas não podem. Na verdade, a maioria delas pode apenas assistir TV analógica de definição padrão (480 linhas e formato 4:3) em uma tela maior. E a imagem fica esticada e deformada. A tabela abaixo descreve várias situações possíveis.

Qual equipamento possuo atualmente? Receberei o verdadeiro sinal digital das emissoras abertas? Verei imagens das emissoras abertas em alta definição (HDTV)? Terei acesso à interatividade das emissoras abertas?

TV de tubo sem receptor digital externo
Sem TV por assinatura
Não. É necessário um receptor digital externo da TV aberta. O receptor precisa estar ligado a uma antena UHF interna ou externa. Neste caso, adquira um receptor de definição padrão (SDTV). Sem o receptor, você receberá um sinal analógico de baixa qualidade. Não, porque a TV de tubo não é capaz de exibir imagens em alta definição. Com o receptor digital externo da TV aberta, você verá imagens de ótima qualidade, porém com definição padrão (SDTV). Não. Para acessar os recursos interativos da TV digital aberta, é necessário um receptor digital externo com o software Ginga instalado, conectado a um modem de banda larga. A maioria dos receptores fabricados até 2009 não possui e não permite instalar o Ginga.
 
TV de tubo sem receptor digital externo
Com TV por assinatura
Não. Se a sua TV por assinatura for do tipo ‘Analógica’ ou ‘Digital’, você receberá sinais analógicos ou digitalizados cuja origem é de transmissões analógicas de baixa qualidade. Não, porque a TV de tubo não é capaz de exibir imagens em alta definição. Não. Você terá acesso somente aos recursos interativos oferecidos pela sua operadora de TV por assinatura, que são inferiores aos recursos interativos da TV digital aberta. Para acessar os recursos interativos da TV digital aberta, é necessário um receptor digital externo com o software Ginga instalado, conectado a um modem de banda larga. A maioria dos receptores fabricados até 2009 não possui e não permite instalar o Ginga.


TV de tubo com receptor digital externo
Sem TV por assinatura
Sim, mas o receptor precisa estar ligado a uma antena UHF interna ou externa. Não, porque a TV de tubo não é capaz de exibir imagens em alta definição. Com o receptor digital externo da TV aberta, você verá imagens de ótima qualidade, porém com definição padrão (SDTV). Não, se o receptor digital externo não possuir o software Ginga instalado. A maioria dos receptores fabricados até 2009 não possui e não permite instalar o Ginga.

Sim, se o receptor digital externo possuir o software Ginga instalado e estiver conectado a um modem de banda larga.


TV de LCD/LED/Plasma sem receptor digital integrado
Sem TV por assinatura
Não. É necessário um receptor digital externo da TV aberta. O receptor precisa estar ligado a uma antena UHF interna ou externa. ção. Sem o receptor, você receberá um sinal analógico de baixa qualidade. Não. É necessário um receptor digital externo de alta definição, conectado à TV através de um cabo HDMI e a emissora transmitir em alta definição. Não. Para acessar os recursos interativos da TV digital aberta, é necessário um receptor digital externo com o software Ginga instalado, conectado a um modem de banda larga. A maioria dos receptores fabricados até 2009 não possui e não permite instalar o Ginga.
 
TV de LCD/LED/Plasma sem receptor digital integrado
Com TV por assinatura
Não, se sua TV por assinatura for do tipo ‘Analógica’ ou ‘Digital’. Você receberá sinais analógicos ou digitalizados cuja origem é de transmissões analógicas de baixa qualidade.

Sim, se sua TV por assinatura for do tipo ‘Digital-HD’ e se o receptor da operadora estiver conectado à TV através de um cabo HDMI.
Não, se sua TV por assinatura for do tipo ‘Analógica’ ou ‘Digital’.

Sim, se sua TV por assinatura for do tipo ‘Digital-HD’, se o receptor da operadora estiver conectado à TV através de um cabo HDMI e se a emissora transmitir em alta definição.
Não. Você terá acesso somente aos recursos interativos oferecidos pela sua operadora de TV por assinatura, que são inferiores aos recursos interativos da TV digital aberta. Para acessar os recursos interativos da TV digital aberta, é necessário um receptor digital externo com o software Ginga instalado, conectado a um modem de banda larga. A maioria dos receptores fabricados até 2009 não possui e não permite instalar o Ginga.

TV de LCD/LED/Plasma com receptor digital integrado
Sem TV por assinatura
Sim, mas o televisor precisa estar ligado a uma antena UHF interna ou externa. Sim, se a emissora transmitir em alta definição. Não, se o receptor integrado não possuir o software Ginga instalado. A maioria dos televisores com receptor digital integrado fabricados até 2009 não possui e não permite instalar o Ginga.

Sim, se o receptor integrado possuir o software Ginga instalado e estiver conectado a um modem de banda larga.
 
TV de LCD/LED/Plasma com receptor digital integrado
Com TV por assinatura
Sim, se sintonizar os canais abertos através do receptor digital integrado. Mas o televisor precisa estar ligado a uma antena UHF interna ou externa.

Não, se sintonizar os canais abertos através do receptor da TV por assinatura do tipo ‘Analógica’ ou ‘Digital’. Você receberá sinais analógicos ou digitalizados cuja origem é de transmissões analógicas de baixa qualidade.

Sim, se sintonizar os canais abertos através do receptor da TV por assinatura do tipo ‘Digital-HD’ e se o receptor estiver conectado à TV através de um cabo HDMI.
Sim, se sintonizar os canais através do receptor digital integrado e se a emissora transmitir em alta definição.

Não, se sintonizar os canais através do receptor da TV por assinatura do tipo ‘Analógica’ ou ‘Digital’.

Sim, se sintonizar os canais através do receptor da TV por assinatura do tipo ‘Digital-HD’, se o receptor estiver conectado à TV através de um cabo HDMI e se a emissora transmitir em alta definição.
Não. Você terá acesso aos recursos interativos oferecidos pela sua operadora de TV por assinatura, que são inferiores aos recursos interativos da TV digital aberta. Para acessar os recursos interativos da TV digital aberta, é necessário um televisor com receptor digital integrado que tenha o software Ginga instalado, conectado a um modem de banda larga. A maioria dos televisores com receptor digital integrado fabricados até 2009 não possui e não permite instalar o Ginga.

 
TV de LCD/LED/Plasma sem receptor digital integrado
Com receptor digital externo
Sim, mas o receptor precisa estar ligado a uma antena UHF interna ou externa. Sim, se o receptor digital externo for um modelo de alta definição, conectado à TV através de um cabo HDMI e se a emissora transmitir em alta definição. Não, se o receptor digital externo não possuir o software Ginga instalado. A maioria dos receptores fabricados até 2009 não possui e não permite instalar o Ginga.

Sim, se o receptor digital externo possuir o software Ginga instalado e estiver conectado a um modem de banda larga.

Resoluções e formatos de tela

SDTV – Standard Definition Television (televisão de definição padrão)
Resolução: 720 x 480 pixels
Formato de tela: Standard 4:3
HDTV – High Definition Television (televisão de alta definição)
Resolução: 1280 x 720 pixels
Formato de tela: Widescreen 16:9
Full HD – Full High Definition (alta definição total)
Resolução: 1920 x 1080 pixels
Formato de tela: Widescreen 16:9
LDTV – Low Definition Television (televisão de baixa definição)
Resolução: 320 x 240 pixels
Formato de tela: Standard 4:3


Imagem analógica no padrão SDTV recebida e exibida em televisores de tubo (480 linhas de resolução). Esta é a qualidade de imagem que estamos acostumados a ver na TV analógica atual.


Imagem analógica no padrão SDTV recebida e exibida em televisores de LCD, LED ou Plasma, do tipo HDTV Ready ou Full HDTV, sem uso do conversor digital (480 linhas de resolução). Note que a imagem está esticada horizontalmente e deformada. Atualmente, esta é a situação que ocorre com mais freqüência, para quem assiste TV aberta ou TV por assinatura nestes televisores.


Imagem digital no padrão HDTV recebida pelo conversor digital de alta definição e exibida em televisores de LCD, LED ou Plasma, do tipo HDTV Ready (720 linhas de resolução). Apesar de ter ótima qualidade, esta imagem ainda não é de alta definição total.


Imagem digital no padrão Full HD recebida pelo conversor digital de alta definição e exibida em televisores de LCD, LED ou Plasma, do tipo Full HD (1080 linhas de resolução). Esta imagem representa a verdadeira alta definição total, onde os detalhes das montanhas, árvores e flores aparecem com muita nitidez.


Imagem digital no padrão LDTV transmitida para dispositivos móveis e portáteis como celulares, PDA´s e muito utilizada na Web também (240 linhas de resolução).

Frequência do canal de TV e multiprogramação

As transmissões de TV digital ocorrem dentro da banda de freqüências UHF (Ultra High Frequency). Cada canal de televisão ocupa um espaço de 6 MHz (Megahertz) no espectro eletromagnético. Por exemplo, a TV Tribuna de Santos, cuja transmissão digital está no canal 19 em UHF, ocupa uma faixa de frequência que vai de 500 a 506 MHz. Dentro dessa faixa de 6 MHz, de cada canal, é possível transmitir aproximadamente 19 Mbps (Megabits por segundo) de informação digital (imagens, sons e softwares). Do ponto de vista tecnológico, cada emissora de TV poderá ocupar este espaço com a chamada multiprogramação (Multicasting).

Por exemplo, em um determinado horário, uma emissora poderá transmitir, simultaneamente, a grade de programação principal em HDTV e mais 3 grades de programação alternativa em SDTV.



Em outro horário, a emissora poderá transmitir, simultaneamente, a grade de programação principal e mais 5 grades de programação alternativa, todas em SDTV.



Outra possibilidade é o recurso de multiângulos nas transmissões esportivas, onde o telespectador escolhe o ângulo de câmera que deseja ver. Em todos os casos, é possível a transmissão de uma grade de programação adicional para dispositivos móveis e portáteis (celulares, por exemplo) e ainda as aplicações interativas (softwares) contendo informações extras sobre o programa ou recursos para a realização de enquetes, votações e compras pela TV. Vale lembrar que o recurso de multiprogramação depende de futura regulamentação. Até o final de 2009, somente as emissoras públicas estavam autorizadas pelo Ministério das Comunicações a usar multiprogramação.

Telas e os enquadramentos de câmera

No Brasil, os televisores de tubo no formato 4x3 continuarão a ser utilizados por muitos anos ainda. Portanto, um enorme desafio nesse período será produzir um conteúdo audiovisual que permita a melhor visualização possível, tanto em televisores de tela Widescreen 16x9 como em televisores de tela convencional 4x3, evitando a perda de informação da narrativa audiovisual nas telas 4x3 e o aparecimento de elementos indesejáveis nas laterais da tela Widescreen 16x9.

Produção original no formato 4x3 exibida em tela de formato 16x9

Um vídeo no formato 4x3 pode ser visualizado de três formas em um televisor com tela widescreen: Pillarbox - o vídeo é apresentado no centro da tela e aparecem duas barras verticais nas laterais, causando um incômodo; Zoomed - o vídeo é cortado nas partes superior e inferior, causando a perda de informação visual; Stretched - o vídeo é “esticado” para se encaixar na tela, causando a deformação da imagem.



Produção original no formato 16x9 exibida em tela de formato 4x3

Um vídeo no formato 16x9 pode ser visualizado de três formas em um televisor convencional: Letterbox - o vídeo é apresentado no centro da tela e aparecem barras horizontais, causando um incômodo; Centre Cut Out - o vídeo é cortado nas laterais, causando a perda de informação visual; Anamorphic - o vídeo é "encolhido" para se encaixar na tela, causando a deformação da imagem.



Enquadramento correto

Ao produzir um vídeo no formato 16x9, o operador de câmera deve ter o cuidado de fazer um enquadramento que proporcione uma boa visibilidade da cena tanto nas telas de proporção 4x3 como nas de proporção 16x9. A forma mais simples de fazer isso é dividindo a tela verticalmente em 8 partes iguais.



Uma oitava parte do lado esquerdo e uma oitava parte do lado direito devem receber atenção, pois são áreas visíveis em televisores de LCD, LED e plasma com recepção digital em HDTV. As seis partes centrais representam a área visível em televisores com recepção analógica. Portanto, nessa área devem ser enquadrados os elementos cênicos primordiais. E nessa parte central da tela, continuam valendo os parâmetros “Action Safe” como áreas seguras de ação cênica e “Title Safe” como áreas seguras para inserção de textos.

O uso dessas áreas de segurança é necessário porque, no Brasil, ainda existem milhares de televisores de tubo que não são de tela plana. Portanto, nesses televisores mais antigos, de tela arredondada, existe uma perda de aproximadamente 5% da imagem, em cada uma das quatro bordas.

Alta fidelidade de som

A TV digital brasileira adotou o AAC - Advanced Audio Coding como padrão de áudio digital. Essa tecnologia permite a produção e a veiculação de programas com som Surround 5.1, semelhante ao cinema. No entanto, para desfrutar da qualidade deste som é necessário conectar a saída de áudio digital do receptor à entrada de áudio digital de um aparelho de Home Teather equipado com o decodificador AAC.



No mercado brasileiro, é muito difícil encontrar equipamentos de som com o decodificador AAC. Nesse caso, a solução é utilizar o recurso Dolby ProLogic, presente em praticamente todos os aparelhos de Home Teather atuais, para simular o efeito Surround 5.1 a partir de um áudio Stéreo 2.0. Alguns modelos de televisores com receptor digital integrado possuem saída de áudio digital que converte o áudio AAC para Dolby Digital 5.1.

A tecnologia de áudio digital permitirá também uma série de novos recursos como a seleção de idiomas de um filme, seleção do som de uma determinada torcida em um jogo de futebol, seleção de narrador e comentarista mais favorável ao clube de sua preferência, audiodescrição para deficientes visuais e muito mais.

Interatividade na TV digital

Produzir e veicular conteúdo audiovisual em alta definição acarreta aumento de custos com equipamentos e capacitação de profissionais - provavelmente absorvidos pelas produtoras de vídeo e pelas emissoras - mas não gera aumento de receitas, pois o repasse desse custo adicional para os anunciantes poderia colocar em risco a viabilidade da publicidade na TV. Além disso, a base de televisores de alta definição instalada nas residências brasileiras ainda é muito pequena para justificar produções de alta definição em larga escala. O aumento da quantidade de produções em HDTV se dará de forma gradual.

Produzir e veicular conteúdo audiovisual com interatividade também acarreta aumento de custos. Porém, existe a possibilidade de aumento de receitas com novos modelos de negócios em curto prazo, onde todos os “atores” envolvidos (emissoras, produtoras, agências de publicidade e anunciantes) poderão faturar, gerando uma nova cadeia de valores.

Até o final de 2009, a interação com programas de televisão se deu de forma indireta, ou seja, através de outros meios de comunicação como telefone fixo, celular e web. Mas, a partir de 2010, com a implantação comercial da plataforma Ginga, a TV digital brasileira passa a utilizar a interatividade direta, ou seja, com interações realizadas através do controle remoto da TV.



Inicialmente, podemos fazer três abordagens sobre a interatividade na TV: a primeira abordagem está relacionada aos conteúdos interativos, que poderão ser semelhantes aos extras de DVD e aos portais da Web; a segunda abordagem está relacionada às formas de apresentação desses conteúdos na tela, que poderão ser semelhantes aos menus de DVD; a terceira abordagem está relacionada às formas de uso do controle remoto, que poderão ser semelhantes ao uso do controle remoto do DVD Player e ao uso do teclado de aparelhos celulares na digitação de mensagens de texto.

A interatividade deverá ser implantada de forma gradual, conforme o ritmo de aprendizado dos profissionais de TV ao lidar com novas tecnologias e novas situações, bem como pela assimilação dessas inovações pelo público telespectador. A princípio, podem ser considerados três níveis de interatividade:

Interatividade Local - o teleusuário navega por telas e conteúdos extras, sem envio de dados à emissora, com todas as interações realizadas internamente no receptor digital;
Interatividade Parcial - o teleusuário navega por telas e conteúdos extras, com possibilidade de envio de dados à emissora;
Interatividade Plena - o teleusuário navega por telas e conteúdos extras, com possibilidade de recebimento e envio de dados, áudio e vídeo à emissora ou a outros teleusuários.



Na Interatividade Local, um excelente exemplo é o “Viva Mais”, um programa de auditório experimental realizado pelo NTDI - Núcleo de Televisão Digital Interativa da Universidade Federal de Santa Catarina, cujo tema é Saúde. Mais informações no site do NTDI.



Na Interatividade Parcial, podemos citar o “Portal de Saúde”, também criado pelo NTDI - Núcleo de Televisão Digital Interativa da Universidade Federal de Santa Catarina. Esta aplicação interativa permite, entre outras coisas, a marcação de consulta médica na rede de atendimento do SUS - Sistema Único de Saúde. Mais informações no site do NTDI.



Na Interatividade Plena, um exemplo muito interessante é a “Torcida Virtual”, criada pelo LAVID - Laboratório de Aplicações de Vídeo Digital da Universidade Federal da Paraíba. Nesta aplicação interativa é possível entrar em um estádio virtual, escolher uma cadeira e conversar por audioconferência com o espectador vizinho, que pode estar a milhares de quilômetros de distância. Mais informações no site do LAVID.

Para a realização das interações parciais e plenas é necessária a utilização, basicamente, de dois tipos de conexão de retorno: Conexão Intermitente - aplicável à interatividade parcial onde a conexão entre o teleusuário e a emissora é estabelecida sob demanda, ou seja, somente no momento de transmitir um pacote de dados; Conexão Permanente - aplicável à interatividade plena onde a conexão precisa ser contínua durante toda a duração do programa. Em ambos os casos, os meios de retorno possíveis são: a linha telefônica fixa (conectada diretamente ao receptor), a linha celular (com o aparelho celular conectado ao receptor via USB ou Bluetooth); o cabo da TV por assinatura (utilizando os serviços contratados junto à operadora) e futuramente o Wi-Max (conexão sem fio de grande abrangência territorial).

Conteúdo interativo

A implantação da interatividade na programação de televisão pode ser caracterizada, principalmente, pela apresentação de aplicativos cujo conteúdo é multimídia, ou seja, composto por áudio, vídeo, imagens, gráficos, textos, entre outros elementos. A combinação desses elementos pode ser considerada como um complemento à informação que é passada no fluxo de áudio e vídeo do programa de TV. Considerando tais possibilidades, em 2008, o autor deste artigo e seu grupo de trabalho - estudantes do curso de pós-graduação em Produção para TV Digital da Universidade Metodista de São Paulo - elaboraram um trabalho acadêmico experimental, sob orientação do Prof. Me. Valdecir Becker, propondo a introdução de recursos interativos no Programa Metrópolis da TV Cultura de São Paulo.



Numa 1ª etapa, foi proposta a interatividade local sem envio de dados do teleusuário à emissora. Nessa etapa, o Metrópolis não sofreria qualquer alteração. Ao iniciar o programa, seria carregada a estrutura básica do aplicativo “Metrópolis Interativo” (painéis, menus e botões). Cada matéria em vídeo teria o seu respectivo conteúdo interativo, que seria carregado dentro do aplicativo, no momento em que se iniciasse a exibição da respectiva matéria no programa. Cada conteúdo disponibilizado teria uma indicação com ícone e legendas na tela. Os conteúdos seriam preenchidos durante a exibição do Metrópolis.

O aplicativo ficaria disponível para ser acessado enquanto o programa estivesse no ar. O aplicativo continuaria funcionando após o final do programa, se sua execução tivesse sido iniciada enquanto o programa estava no ar. Após o encerramento, o aplicativo poderia ser disponibilizado (opcionalmente) através do EPG - Electronic Programm Guide (Guia de Programação Eletrônico) da TV Cultura.

Numa 2ª etapa, continuaríamos apenas com a interatividade local. Mas agora, propomos pequenas alterações na produção do programa. Os apresentadores fariam menções aos recursos interativos e conduziriam o teleusuário em algumas interações. Alguns enquadramentos de câmera deveriam ser feitos de forma a evitar possíveis conflitos estéticos com as interfaces do aplicativo.

Numa 3ª etapa, propomos a introdução da interatividade parcial com envio de dados do teleusuário à emissora, o que requer canal de retorno. Nessa etapa, seria possível introduzir recursos como participação em jogos, votações e solicitações de conteúdo sob demanda.

Para o futuro, propomos uma interatividade plena com retorno de dados, áudio e vídeo. Esta etapa requer estudos aprofundados sobre a concepção de um novo programa, totalmente baseado na interatividade plena e em novas formas de participação e colaboração do teleusuário.

Multiconteúdos e Multimeios

Em junho de 2009, um projeto acadêmico experimental foi realizado para a disciplina "Ergonomia e Design de Interfaces", por alunos do 5º semestre do curso de Bacharelado em Mídias Digitais, da Universidade Metodista de São Paulo, sob a orientação do autor deste artigo.

Os alunos Aldo Tozzo, Diego Mendonça, Érika Wajima, Fábio Toste, Gustavo Tezotto, Paulo Roberto Degaspari, Rafael Basso, Rainer Gazarini, Thiago Bertulino e William Nogueira desenvolveram um protótipo de aplicação interativa acoplada às transmissões de automobilismo da Fórmula 1 da Rede Globo de Televisão. A aplicação, desenvolvida com os softwares Photoshop e Flash, tem formato de apresentação semelhante aos menus de DVD e conteúdo semelhante aos portais de Web. O teleusuário tem acesso a informações sobre a corrida atual em tempo real - grid de largada, posições atuais, pontuação no campeonato, ultrapassagens mais recentes e Extras - tudo através dos botões do controle remoto da TV digital.

Na área dos Extras, existem informações detalhadas sobre carros, equipes, pilotos e autódromos e ainda jogos interativos, tour virtual com escolha do ângulo de câmera, comunidade virtual com recebimento e envio de mensagens de texto e uma loja virtual para compra de produtos licenciados e de ingressos para futuras corridas. O experimento também contemplou versões online para celulares e Web.


Versão online para celulares.


Versão online para a web.


Biblioteca multimídia e serviços

Em algumas emissoras de TV está em andamento um processo de digitalização dos acervos de programas arquivados em fitas magnéticas analógicas. Com isso, abre-se a possibilidade, conforme a estratégia de cada emissora, de que esses programas possam ser disponibilizados através do recurso de multiprogramação.

Dentre as mais variadas formas de manifestações artísticas, culturais e sociais, a televisão é sem dúvida uma das mais importantes e a produção televisiva realizada em quase 60 anos de existência constitui um patrimônio sócio-cultural que precisa ser conhecido pelas novas gerações. Portanto, a TV digital interativa poderá se caracterizar como uma espécie de biblioteca multimídia.

Considerando que cada canal de TV poderá conter até 6 grades de programação simultânea, a multiprogramação, quando estiver regulamentada, também poderá abrir mais espaço para os produtores independentes, pois mesmo com a digitalização dos acervos das emissoras, ainda teremos uma carência de conteúdos para preencher todos esses novos “canais” de TV.

Do ponto de vista tecnológico, todos esses conteúdos também poderão ser disponibilizados através de download sob demanda com armazenamento no Set-Top Box ou num gravador digital. Mas esse recurso certamente exigirá uma conexão de banda larga de altíssima velocidade. O teleusuário poderia escolher entre baixar o conteúdo completo (aplicação interativa e vídeo) ou somente vídeo. Também poderia escolher a resolução de vídeo compatível com seu televisor ou com a velocidade de banda larga disponível.

Se fosse tarifado pelas emissoras, esse tipo de serviço poderia, por exemplo, gerar conflitos com as empresas de TV por assinatura. Tecnologicamente, muitas coisas são possíveis, mas somente com uma regulamentação específica e um perfeito entendimento do que é essa nova mídia "TV digital interativa", poderão ser criados novos modelos de negócios.

A interatividade na TV também poderá dar origem a uma série de novos serviços de governo eletrônico e cidadania como marcação de consultas médicas no SUS, consultas e pagamento de impostos, contato com órgãos públicos, previsão do tempo, condições de trânsito em áreas urbanas e estradas, T-Banking, T-Mail, T-Learning, T-Commerce e muitos outros.


Publicidade interativa na TV digital



Na imagem acima, temos um exemplo de publicidade interativa na TV. Neste experimento, realizado em 2008 pelo autor deste artigo, a aplicação interativa está acoplada ao comercial de TV e o teleusuário pode utilizar o controle remoto para navegar pelas telas e realizar uma simulação com várias tinturas aplicadas ao cabelo da modelo. Durante a execução da aplicação, o áudio da programação da emissora continua a ser ouvido.

Com o advento da interatividade, poderemos ter vídeos publicitários interativos. Acoplado ao fluxo de vídeo e áudio do comercial de TV, poderá ser transmitido um software contendo um aplicativo, no qual o teleusuário poderá obter informações mais detalhadas sobre o produto anunciado e, se desejar, efetuar a compra deste, através de alguns toques no controle remoto.

Tais informações poderão ser compostas por conteúdo multimídia como vídeos adicionais, computação gráfica, animações, imagens, ilustrações, textos descritivos, entre outros elementos. O acesso a esse material poderá ser realizado através do controle remoto da TV digital. O usuário navegará por menus na tela, da mesma forma que faz hoje com os DVDs de filmes e musicais.

As pesquisas sobre publicidade na TV digital interativa estão apenas no início. Mas já existem algumas questões que merecem estudos mais aprofundados. Por exemplo, no caso de um comercial interativo com redimensionamento do vídeo, teremos o aplicativo do produto A sendo executado. Alguns minutos depois vai ao ar o comercial do produto B. Então teremos o aplicativo do produto A e o vídeo do produto B aparecendo simultaneamente na tela. Suponha que os produtos A e B sejam concorrentes diretos. Essa situação certamente desagradaria aos dois anunciantes.

Atualmente, o modelo de negócio de televisão é totalmente baseado nos índices de audiência. Quanto maior a audiência de um programa, maior é o valor das inserções nos respectivos intervalos comerciais. Mas com um novo paradigma e diante de situações inusitadas, as emissoras serão obrigadas a desenvolver um novo modelo de negócio para publicidade na TV.

A princípio, é possível imaginar um modelo baseado na forma como se dará a interatividade. Um comercial interativo com redimensionamento do vídeo teria um custo menor; com cobertura total somente de vídeo teria um custo intermediário; e com cobertura total de vídeo e áudio teria um custo maior.

Como uma nova tecnologia em comunicação, a TV digital interativa carece de estudo e entendimento de suas possibilidades e potencialidades. Mesmo com algumas referências, a publicidade interativa na TV digital brasileira ainda pode ser considerada uma incógnita. Esse novo formato, que incluirá a variável software, poderá aumentar o tempo de produção, exigir mais recursos humanos e tecnológicos e isso, a princípio, poderá elevar os custos em publicidade televisiva.

A rejeição aos formatos atuais de publicidade é crescente. Segundo várias pesquisas divulgadas, a tendência é de crescimento da Web e de retração da TV como mídia essencial. As agências digitais estão em alta e os grupos de comunicação tradicionais precisam se reinventar e se reposicionar. É necessário um planejamento de mídia que passe a considerar a convergência entre TV interativa, Web, celular e outras mídias digitais.

Impactos da interatividade na produção televisiva

A introdução de recursos interativos na programação da TV poderá ter influência na linguagem audiovisual. Serão necessários cuidados especiais com enquadramentos e movimentos de câmera, composição cênica, direção de fotografia, direção de arte, cenografia, videografismo (ao vivo ou de pós-produção), entre outros quesitos. Os conceitos de identidade visual, design gráfico e web design estarão muito presentes na criação das interfaces das aplicações interativas para TV.

Daqui pra frente, toda e qualquer produção televisiva precisa considerar a convergência com outras mídias digitais, principalmente a Web e o celular. Neste cenário multimídia, surge o novo segmento do Design de Interação dentro de emissoras e produtoras, onde conceitos de ergonomia e usabilidade, muito presentes no dia-a-dia dos desenvolvedores de software e web designers, farão parte do cotidiano dos profissionais de televisão também. A interatividade na TV é um assunto novo que requer uma definição de linguagens e padrões, com o objetivo de facilitar o acesso ao conteúdo interativo.

O uso dos botões do controle remoto, uniformidade de ações e formas de navegação, layout de telas, ajuste da interface aos formatos de tela 4x3, 16x9, HDTV, Full HDTV, redimensionamento e reposicionamento de elementos na tela, serrilhamento, pixelização e deformação deverão ser observados pelos videografistas do futuro.

No caso dos celulares, por exemplo, é ainda mais complicado. O design de interfaces das aplicações deverá prever uma ampla variedade de marcas e modelos, com diferentes formatos e dimensões de tela.

Interface da aplicação interativa e vídeo do programa

Os recursos interativos na TV se dão através de aplicativos com uma interface gráfica. Essa interface gráfica poderá ser concatenada com o vídeo do programa de três formas distintas: Overlay (em sobreposição ao vídeo), Resize (com redimensionamento do vídeo) e Fullscreen (interface em tela cheia ocultando o vídeo).

Overlay

Na imagem da esquerda, nota-se que o enquadramento deixa espaço para interface. Na imagem da direita, interface da aplicação interativa aparece sobreposta ao vídeo e ocupando o espaço deixado. Neste caso, se houver legenda no vídeo, a interface sobreposta cobrirá parte deste vídeo, gerando uma poluição visual.

Resize


Na imagem da esquerda, temos o vídeo do programa ocupando toda a tela. Na imagem da direita, a interface da aplicação interativa inclui vídeo redimensionado dentro de uma “janela”. Neste caso, o vídeo pequeno dificulta a visualização de planos abertos e a leitura das legendas do vídeo.

Fullscreen


Na imagem da esquerda, temos o vídeo publicitário ocupando toda a tela e uma aplicação em overlay perguntando se o usuário deseja uma pizza e um refrigerante grátis. Ao selecionar o opção "YES!", é carregada a aplicação completa. Na imagem da direita, temos a aplicação completa onde a interface cobre totalmente o vídeo. Neste caso, poderemos ter três situações: aplicação rodando com o áudio do vídeo (programa) em background; aplicação rodando com áudio próprio (trilha sonora); ou aplicação rodando sem áudio.

Relação entre conteúdo interativo e programa de TV

O conteúdo interativo poderá estar totalmente atrelado, relativamente atrelado ou desatrelado do programa. No caso dos conteúdos atrelados, estes poderão ser disponibilizados de forma síncrona - conteúdo interativo e audiovisual vão ao ar simultaneamente - de forma pré-assíncrona - conteúdo interativo é disponibilizado antes de o conteúdo audiovisual ir ao ar - e de forma pós-assíncrona - conteúdo interativo é disponibilizado depois de o conteúdo audiovisual ir ao ar.

Implantação da interatividade

Segundo o Prof. Me. Valdecir Becker, a televisão tem uma linguagem consolidada e as aplicações interativas deverão respeitar essa linguagem como ela é conhecida hoje pelos telespectadores. A interatividade terá impacto direto na concepção e na produção de novos programas ou na adaptação de programas já existentes. Além de entreter e informar, as aplicações interativas deverão despertar curiosidade e cativar o telespectador. Se a experiência for desagradável, ele não se interessará em realizar futuras interações.

Pensando nisso, nossa proposta é que a interatividade seja implantada de forma gradual. Em uma primeira etapa, a aplicação interativa se adapta totalmente ao programa e este não sofre qualquer alteração. Numa segunda etapa, a aplicação interativa se adapta, mas o programa faz menções à interatividade. Na terceira etapa, o programa se adapta à aplicação interativa. E numa quarta etapa, o programa é totalmente concebido em função da aplicação interativa.

Os períodos dessas etapas de implantação não estão definidos e este assunto começa a ser objeto de estudo em algumas emissoras, produtoras de conteúdo interativo e escolas de comunicação.

Medição da audiência e expectativas do público telespectador

No momento em que os chamados canais de retorno estiverem disponíveis nos receptores digitais, as emissoras de TV poderão monitorar as ações dos teleusuários, estabelecer o perfil do público, saber a localização do receptor, realizar estatísticas de acesso, entre outras coisas e, assim, definir novas estratégias de atuação.

Com isso, o People Meter do IBOPE (aparelho instalado em 700 residências paulistanas para medir audiência) não terá mais razão de existir. O IBOPE poderá utilizar o seu know-how auxiliando emissoras, agências de publicidade e anunciantes na interpretação dos dados coletados. Vale lembrar que a preservação da privacidade do teleusuário e as questões éticas deverão ser consideradas em legislação específica, num futuro breve.

Uma pesquisa realiza em 2005 pelo CPqD demonstrou que quase 85% do público entrevistado desconhece totalmente o que é TV digital. Se uma pesquisa desse tipo for feita hoje, os resultados, provavelmente, não serão muito diferentes. Então, como saber se o público está preparado para a interatividade na TV?

O primeiro passo para implementar interatividade em um programa de TV é conhecer o público-alvo, seus hábitos de consumo, formas de utilização das tecnologias e dos meios de comunicação, informação e entretenimento. Sendo mais específico, devemos saber como as pessoas lidam com aparelhos de DVD, celulares, computadores, Web, caixa eletrônico de bancos, entre outras interfaces interativas. De posse dessas informações, as emissoras e os produtores de conteúdo interativo terão melhores condições de estabelecer as estratégias mais adequadas ao público-alvo de cada programa de TV.


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